terça-feira, 2 de julho de 2013

DEPOIMENTO



Por MAX MEDEIROS:

"Desculpem os puritanos, mas estou puto! Muito puto! Entenderão porquê: Primeiro os senhores que ouviram do protesto no Rio através da mídia e só tem a imagem do coquetel molotov, saibam que esse é só um lado, e apenas um lado da história. 

Após este primeiro confronto, os manifestantes se dispersaram e só alguns retornaram para o local e seguiram em protesto absolutamente pacífico, inclusive conversando com os senhores policiais. Terminado o jogo, caminhamos ao redor do cerco pelas ruas da Tijuca ainda em manifestação. Chegados a uma barreira os policiais ordenaram que virássemos à direita, paramos um pouco para esperar os demais e, quando prosseguimos no nosso caminho, chegou uma tropa de choque atirando gratuitamente. 

Eu mesmo fui atingido por uma bala de borracha e muito gás. Saimos em fuga e mais à frente muitos sentados nas calçadas com o mal estar angustiante causado pelo lacrimogêneo. Estávamos fora do limite estipulado, absoliutamente pacificos e ainda assim fomos expulsos.

Quase no metrô, à caminho de casa, fui abordado por um grupo de policiais da seguinte forma:
- Tá indo pra onde?
- Pra casa.
- Então abre a merda dessa mochila pra eu ver o que tem.
- Se o senhor falar com educação eu abro.
(pegando no meu braço) - Educação? Abre a PORRA dessa mochila!

Nesse ponto eu obviamente me alterei e fui levado ao oficial maior que me chamou de marginal. Acusei-os de marginalizarem gente de bem, chamei o oficial e seus subordinados de marginais por me abordarem daquela forma, mostrei o hematoma da bala de borracha e o cara ainda me pediu pra ficar calmo!

Finalmente liberado, entro no metrô e foi ai que me senti mais violentado, mais do que pelos gases e bala de borracha, mais do que pela abordagem de um PM idiota. Entro no metrô e os torcedores, retornando do jogo, jubilam a vitória cantando a plenos pulmões o hino nacional. Desandei a chorar e um casal fez-me o favor de perguntar se eu estava bem. Disse que não, aumentei o volume da voz e disse não novamente - Não estou bem porque somos desapropriados da nossa cidade todos os dias.

Remoções, elitização de espaços que deveriam ser do povo, desrespeitos cotidianos aos direitos fundamentais de moradia, saude, educação de qualidade. Somos privados disso por conta de uma corrupção que nos agride na cara! Não estou bem porque hoje mesmo fui expulso do meu próprio lugar à balas, mas as incursões policias nas comunidades não criam somente hematomas, matam!

Então entro no metrô e vocês, que podem pagar cento e noventa reais num ingresso, porque a maioria dos cidadãos dessa cidade não podem, você estão cantando o hino nacional? Fez-se o silêncio.
E esta é só uma breve descrição dessa história."

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